Em um ciclo equilibrado do nosso ecossistema, todo resíduo deveria virar insumo para produção de novos produtos. Em um processo contínuo de reaproveitamento, novos recursos seriam naturalmente gerados. No entanto, a interferência humana tem causado impactos profundos e desestabilizado essa estrutura. Nesse contexto, a economia circular surgiu como resposta a um novo desenvolvimento que nos faça avançar!

A base deste conceito é o aumento da vida útil de produtos ou insumos anteriormente descartados, através de estratégias como a reutilização, reciclagem e descarte adequado. Isso torna possível que a ideia comum do que definimos como “lixo”, seja desconstruída através de projetos e sistemas que promovam o desenvolvimento sustentável. Este modelo sustentável aliado à tecnologia, permite controlar os estoques finitos e equilibrar os recursos renováveis, propiciando sistemas industriais integrados, restaurativos e regenerativos.

Processo de Economia Circular

Entendendo melhor o conceito

O conceito de economia circular agrupa uma série de pensamentos do último século. Ao estudá-los, é possível compreender mais a fundo seu funcionamento e aplicabilidade:

  • Design regenerativo
  • Economia de performance (Walter Stahel)
  • Filosofia de design “cradle to cradle” – do berço ao berço (William McDonough e Michael Braungart)
  • Ecologia industrial (Reid Lifset e Thomas Graedel)
  • Biomimética articulada (Janine Benyus)
  • Blue economy (Gunter Pauli)
  • Biologia sintética
  • Capitalismo natural (Amory e Hunter Lovins e Paul Hawkens)

Como o próprio nome sugere, a ideia é opor-se ao processo produtivo linear vigente e fazer com que os resíduos produzidos sejam insumos para a produção de novos produtos. Assim, o foco deixa de ser simplesmente o gerenciamento de resíduos e passa para o design de produtos e sistemas inovadores. Estes novos produtos passam a ser criados para reaproveitamento em fluxos cíclicos (daí o nome ‘circular’), em uma trajetória de “berço ao berço” (cradle to cradle, ou C2C), e não de “berço ao túmulo” (trajetória vigente em que o que sobra de um produto após ser usado vai para descarte – túmulo). A economia circular faz o produto “renascer”.

A economia circular entende e trabalha em dois ciclos de fluxos de materiais: o biológico e o técnico. Neste primeiro, são produzidos os produtos de consumo. Os materiais são biodegradáveis ou matéria vegetal, projetados para retornar como nutrientes biológicos para o solo. Já o ciclo técnico envolve a restauração de produtos de serviço como carros, lâmpadas e computadores, com estratégias de reuso, reparo, remanufatura ou mesmo reciclagem.

De acordo com a revista Nature, o uso de recursos pelo tempo mais longo pode reduzir as emissões de gases de algumas nações em até 70%, e diminuir significativamente os resíduos.

Toda a cadeia produtiva é repensada para que produtos usados como roupas ou eletrodomésticos, por exemplo, possam ser reprocessados ou reintegrados a cadeia de alguma forma. É muito mais que reduzir o consumo, reutilizar materiais ou reciclar. Trata-se de criar um novo modelo econômico sustentável que funciona de acordo com o ritmo produtivo, tecnológico e comercial da modernidade.

Diferença entre o processo linear e circular

Até agora, nosso sistema produtivo funciona de forma linear, ou seja, baseado na extração, produção, consumo e descarte. Isso gera exploração excessiva de recursos naturais e acúmulo de resíduos de forma exponencial. De acordo com relatório da Ellen MacArthur Foundation – uma organização especializada em difundir e apoiar a mudança das empresas para esse novo modelo – 65 bilhões de toneladas de matéria-prima foram inseridas no sistema produtivo mundial em 2010.

A partir dessa organização, foi criada uma rede de empresas (líderes e emergentes), que tem como objetivo colaborar para a mudança da estrutura. Ela é chamada de CE100 (Circular Economy Hundred) e reúne empresas como Coca-Cola, Unilever, Philips, entre outras. Além de reunir soluções para problemas, essa rede gera possibilidades como a criação de uma biblioteca de guias práticos e mecanismos para implantação da economia circular.

Como dito acima, no processo linear os recursos são finitos e focados na extração e descarte. A maior mudança que a economia circular produz é fazer com que resíduos, que antes eram descartados e não-biodegradáveis, passem a ser reutilizados pelas fábricas. Assim, eles podem ser desintegrados, otimizados e transformados em novos materiais de consumo. Com isso, é possível diminuir o desperdício na cadeia produtiva e ajudar o meio-ambiente em escala global.

Esse modelo de economia foi criado pensando na aplicabilidade em qualquer escala, ou seja, para grandes e pequenos negócios, organizações e indivíduos, globalmente e localmente.

Contexto produtivo no Brasil

No Brasil, contabilizamos mais de 200 milhões de habitantes gerando resíduos, constantemente. Segundo dados do IBGE, cada habitante produz em média um quilo de lixo por dia, portanto, somam-se 183 mil toneladas diárias.

Em 2010, foi implantada a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que propõe a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, um acordo setorial e a operação reversa (ou logística reversa). Assim, todos os envolvidos no ciclo produtivo se tornam responsáveis pela diminuição dos resíduos sólidos e pela adoção de práticas mais sustentáveis.

De acordo com publicação da Agência Brasil, 76% das indústrias brasileiras aplicam a economia circular de alguma forma. Mas, ainda há um grande potencial a ser explorado. Segundo esse estudo, 60% das indústrias entendem que as práticas de economia circular podem contribuir para a geração de empregos na própria empresa ou na cadeia produtiva do setor. No entanto, 73% consideram que a transição para a economia circular deve ser uma responsabilidade compartilhada entre governo, consumidores e iniciativa privada.

Como começar a tornar prática a economia circular?

Para que a economia circular realmente funcione, é importante que todos os envolvidos na cadeia produtiva façam parte do processo. Para isso, cada um deve repensar seu papel no ciclo de produção, de acordo com o novo modelo.

Processo de Economia Circular

Diversos países têm feito parte da mudança de produção e paradigmas relacionados ao meio ambiente, implementando novos conceitos e leis. Na China, por exemplo, foi criada a Lei de Promoção da Produção Limpa, no ano de 2002, como resposta à economia circular.  Iniciativas como essa vêm acontecendo nas últimas décadas, fortalecendo esse modelo de sustentabilidade (aquilo que nós descartamos como “lixo” pode gerar novos recursos) que tem sido adotado nos mais diversos setores da sociedade.

Essa mudança de estrutura produtiva envolve diversas ações que podem ser pensadas e colocadas em prática em sua empresa. Listamos algumas delas:

  • Desmaterializar produtos e serviços (valoriza-se a função e utilidade – não tanto o produto em si).
  • Aprimoramento da eficiência na criação de produtos e reaproveitamento de resíduos sólidos.
  • Produtos pensados com a utilização de materiais facilmente recicláveis e que contém substâncias puras, não tóxicas e segregáveis.
  • Redução da contaminação para maximizar a circulação dos materiais.
  • Objetos criados para remanufatura, reforma e reciclagem.
  • Reutilização no consumo: compartilhado para utilização ampla e posteriormente reaproveitado (upcycling), reformado, remanufaturado e reciclado.

Essa transição representa uma mudança sistêmica e de longo prazo. No entanto, produz oportunidades econômicas, bem como benefícios ambientais e sociais.

Empresas voltadas à inovação tem uma preocupação interna de produzir mudanças significativas para o mundo. Mesmo com o foco em sustentabilidade, suas soluções são  economicamente viáveis e lucrativas. Com a tecnologia como aliada ao propósito de reaproveitar resíduos, o Estúdio Carlo Ratti Associati em parceria com a empresa Eni, desenvolveu uma máquina de suco de laranja, que aproveita a casca para produzir o copo do suco. Desta forma, o resíduo da laranja é transformado em um filamento e impresso em um copo. Você pode ver o protótipo no vídeo abaixo:

Conclusão

Sabemos que toda empresa deve ser eficiente, tanto economicamente como tecnicamente, mas para garantir o crescimento futuro, a longo prazo, também é preciso ser ambientalmente eficiente.

Evoluir enquanto se sustenta e elimina desperdícios e perdas é a estratégia das empresas sustentáveis. Tornar o sistema econômico mais eficiente, através da redução do consumo,  recursos e energia; transformando ativos e resíduos não explorados em novos insumos e produtos, é nosso desafio e compromisso com as gerações  futuras.

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